{Você pode ler aqui e ouvir este texto em: Attraversiamo}
Não datei este texto quando escrevi, mas lembro bem do momento da escrita em um dia no fim de 2020 ou início de 2021. Sim, há muito tempo! Foi um fluxo de pensamento, um desabafo, escrito à mão em um dos meus vários cadernos, na varanda de casa, com o sol da manhã batendo na cara. O cenário é lindo, mas já antecipo: o texto {também é bonito}contém reflexões profundas. Portanto, é para quem gosta de refletir e ler - porque é longo!
Attraversiamo? Boa leitura.
O lugar que eu mais gostei de conhecer foi dentro de mim, sozinha, na viagem mais difícil e solitária
que alguém pode fazer: quando a gente passa pelos nossos desertos, onde parece não haver nada, nada
faz sentido e aquele vazio parece infinito e sem nenhum propósito. Você escolhe continuar caminhando
por ele, mesmo cansado e atordoado com tantos pensamentos desconexos sobre si mesmo ou sentar ali
e esperar alguém te resgatar − mas ninguém sabe que você está ali, então...
Fiquei sentada no meu deserto por muito tempo. Antes, eu estava naquele oásis, os pequenos respiros
de vida no oceano de areia e calor. Saía de um oásis para o outro enfrentando a travessia pelo deserto,
mas sabia que estava logo ali o próximo refúgio. Só que em um determinado momento, a distância
entre eles foi aumentando e, mesmo com as experiências de travessias anteriores, estava ficando cada
vez mais difícil e longe chegar. Até o dia em que ele não chegou. Ou eu não cheguei a ele. O oásis mais
próximo não existiu e tive que, sem muitos suprimentos, fazer aquela escolha: atravessar ou esperar.
Passei muito tempo ali, o qual nem sei mensurar quanto, esperando talvez por um pequeno milagre,
mas os milagres acontecem quando sabemos exatamente o que pedimos e o porquê. Eu fiz os pedidos
e as perguntas erradas por muito tempo e, por isso, não saí do lugar até que os devaneios viraram quase
uma tortura e eu era a minha única inimiga, amiga, confidente, carrasco, testemunha, juíza. Eu era a
minha pena e absolvição no meio do deserto. De dia, a cabeça ferve com o calor, com a luta pela
sobrevivência. De noite, um frio surreal, que era inimaginável sentir horas antes, contudo, esse frio
vinha mais do que de fora − vinha principalmente de dentro. De noite tudo parece ampliado: os sons,
a respiração, os batimentos do coração [e eles também parecem, nessas horas, diminuir]. E aí parece
que a vida está se esvaindo e o medo chega, mas assim como tudo na vida, essa noite passa e vem o sol
e a sensação de calor traz esperança. Mas esperança de quê? Não sei, mas ela não me abandona.
E assim passou muito tempo e foi a viagem mais marcante da minha vida. Porque um dia resolvi levantar
da areia e caminhar, sem muita direção, mas caminhar. Pensei que, mesmo assim, chegaria a algum
lugar, diferente de apenas ficar sentada, imóvel. Talvez nesse dia meus pensamentos tenham se
organizado de certa forma e me fizeram fazer a pergunta certa. É o milagre começando. É a força onde
já não se tinha nada. E essa caminhada foi ainda mais difícil porque os pensamentos e questionamentos
estavam mais altos, mais fortes. Eu já mal ouvia fora. Me questionava a todo o momento sobre como
fui parar ali, qual era meu propósito, onde eu deveria chegar e, principalmente, se chegaria. E mesmo
sorrindo, cantando, andando − o que por fora parecia estar tudo bem −, por dentro era quase uma prisão
onde eu só conseguia pedir socorro a mim mesma, meu próprio carrasco. E quando eu achei que eu era
fraca por tudo isso, por não saber as respostas, por não saber os caminhos que pareciam óbvios para as
outras vozes, parei. Silenciei. Me escutei. Fui gentil comigo. Ouvi a minha voz lá no fundo, tímida,
como uma menina estudiosa que sabe as respostas, mas não levanta a mão para responder por medo de
ser julgada, por não acreditar em si. Essa voz lá no fundo me chamou atenção pela delicadeza, coisa
que não pratico comigo mesma. E essa menina sabia mesmo, aliás, era só ela que sabia de mim e muitas
vezes me mandou sinais com respostas, mas eu não dei atenção. Não sabia que era ela [ou quem era ela].
Mas ela nunca me abandonou, nunca me forçou a prestar atenção nela. A menina sabia que tudo tem
seu tempo e que um dia eu a ouviria e tudo faria mais sentido. Ela também sabia que para chegar às
respostas eu teria de aprender a fazer as perguntas, esperar vazios, refletir sobre eles e esperar, e
perguntar de outra forma. Ou outra coisa.
E nessa caminhada do deserto não parei. Por mais doloroso que meu corpo e mente estivessem, eu sabia
que se parasse ali desistiria e voltaria ao momento que não gostaria continuar: sentada esperando.
De repente, entendi que o que eu considerava fraqueza era de uma força que poucos têm: poucos
atravessam seus desertos, poucos ousam sequer sair de um oásis para o outro. Essa viagem não foi
planejada como as outras, mas é resultado delas, de todas as experiências que vivi com elas – antes,
durante e depois. E quando achava que não tinha nada, na verdade eu tinha tudo, mas não era palpável
como diziam que tinha que ser para ter valor, para fazer sentido. E quando me dei conta de tudo isso,
caminhei com mais força, disposição, vontade. O sol é energia; a noite, inspiração. E um dia, não sei
depois de quanto, não cheguei a nenhum oásis. Cheguei a um oceano. O que para muitos é sem saída,
para mim foi a saída. Sorri. Chorei de alegria. Me senti viva. Eu não podia beber daquela água, assim,
com ímpeto, mas agora sabia que caminhando, com pequenos passos, chegaria a novas oportunidades.
E o oceano te leva a infinitas delas. Agora é preciso nadar.

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