Por que é tão difícil colocar limites nas pessoas?

 


{Você também pode ouvir este texto em: Limites }


Fizeram algo ruim para mim. Tentaram colocar a culpa em mim. Tentaram inclusive dizer que aquilo que eu não queria eu devia querer. Tentaram mudar a minha percepção do que é a verdade, do que é real {e nem era uma percepção apenas, eu estava certa, aquilo que eu dizia era verdade, mas quiseram dizer que não}. E sabe o que eu fiz? Fiquei com a sensação de que eu que fiz algo errado e fiquei me sentindo mal. Tive insônia, dor de barriga, refiz a conversa várias vezes na minha cabeça, contei para várias pessoas - acho que para além de eu mesma não acreditar que aquela situação tinha ocorrido, para tentar racionalizar que não, eu não estava errada.

Isso aconteceu ontem, 7 de setembro de 2026, quando fui buscar pela segunda vez uns óculos que comprei e, de novo, não eram os que pedi. Veja: eu paguei por algo. Escolhi conforme o que eu queria e que fica bem em mim. Não foi um presente ou favor. Ainda assim fui confrontada de maneira ríspida, beirando à grosseria, com quatro vendedoras de um lado da mesa a me olhar, duas a me tratarem mal e a tentar me convencer que prata é igual ao dourado (Droga! Só agora pensei em pedir o ouro delas e eu entregava minhas bijous prateadas! Já que é a mesma coisa… detesto quando uma boa resposta só vem depois do momento!).

Enfim, até tentei levar ligeiramente tranquila a situação, voz calma e baixa, enquanto a vendedora que me atendeu no primeiro momento, quando fui apenas para fazer uma consulta gratuita (sim, não cobram a consulta) e saí de lá com esta grande lição {e quase saí com prejuízo financeiro, mas consegui ter coragem de dizer “não”}.

E resolvi escrever este texto justamente por isso. Porque sei como é difícil não só para mim, mas para muitas pessoas dizerem não. Colocarem limites. Não aceitarem algo imposto sem consentimento. Quem cala, nem sempre consente! Às vezes, a pessoa que se cala, só está com medo, confusa, com vergonha, acuada. Às vezes, nem tem conhecimento dos seus direitos. Às vezes, passou por tantas na vida que acha que deve favores a todos.

O texto que fiz antes descrevia toda a situação, com valores inclusive, com a parte que riram do meu nome quando entreguei o papel para retirar os óculos (mas disseram que não foi nada disso, claro, porque eu que tenho uma visão distorcida da realidade, não é mesmo?). Mas nada é por acaso. Ter acontecido tudo isso me trouxe aflição, me fez perder uma noite de sono, me tirou a paz, me deixou nervosa, mas acima de tudo, me fez voltar lá pela 4ª vez e dizer serenamente: “Eu quero cancelar a compra” E ao ser questionada pela tal vendedora sobre qual a justificativa, disse-lhe que não gostei do tratamento e ela quis insistir em saber o motivo e aí veio a cereja do bolo… Eu poderia ter reiniciado uma discussão a dizer que ela foi mal educada comigo, fez um péssimo atendimento, entre outras mil coisas más que esta senhora não deveria ter feito nem comigo nem com ninguém, mas sabe o que eu fiz? Eu simplesmente disse, de forma muito calma, com um tom baixo e plena: “Eu não preciso me justificar.” Silêncio aqui para ouvir um: Turn down for what?! hahaha

Bem que minha terapeuta fala que eu tenho quase um dom de fazer mesmo os momentos difíceis, leves.

Mas é porque vocês não viram e não vêem o quanto eu fico nervosa.

Quantas vezes eu repasso a situação pela memória para ver se eu errei, onde errei, o que eu devo fazer para consertar e se eu não errei, porque eu permiti alguém que me deixasse sentir mal, o que eu deveria ter falado… eu fico remoendo as coisas por hora, dias e às vezes semanas {tem situações, inclusive, que já aconteceram há anos e eu ainda penso nelas - não com frequência, claro, porque aí Santa Paciência, a pessoa precisa de mais terapia, mas sim, situações que eu sinto um incômodo aqui dentro até porque envolviam pessoas que, na época, eu gostava}.

Dizer que eu não preciso me justificar e colocar este limite de forma tão assertiva foi um alívio e estou mesmo orgulhosa de mim. Se você também precisa aprender a colocar estes limites, olha… recomendo viu? É libertador!

E olha que eu já venho praticando isso há alguns anos, mas ainda há situações desafiantes. Mas digo: tem valido muito a pena! Aliás, este ano, que não tem sido um ano nada fácil para mim, pensando bem, eu tenho conseguido dar mais limites. E foi nos momentos mais difíceis deste ano que eu tive que ser ainda mais forte e dar um basta. Eu sabia que se eu deixasse as pessoas continuarem abusando de mim, elas iriam continuar. E naqueles momentos só eu poderia me salvar. E que bom que eu me escolhi!

Não é fácil. Exige tempo, autoconhecimento, força. Exige até um certo nível de egoísmo {porque a maior parte das pessoas são muito egoístas e quem não é, como eu, acaba vivendo em função desses}.

Então, se você tem algo que queria dizer “não”, “chega”, “não é isso que eu quero para mim”, diga. Pode ser um óculos comprado com o seu dinheiro, pode ser um relacionamento que não te faz feliz. Você sabe do que eu estou falando e sabe onde este texto se encaixou na tua vida. 

E é por isso que quis partilhar esta e muitas outras experiências minhas: porque são comuns a muitas pessoas, a muitos casos, a muitas situações e, principalmente, porque podem ajudar ou inspirar alguém a terminar o dia de hoje mais leve. Pode ajudar uma pessoa a se sentir orgulhosa de si mesma. E eu fico feliz de imaginar que isso possa acontecer só porque eu contei a minha história. 

  Lucca, o cãozinho



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