Positividade tóxica

 

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“Impor a nós mesmos — ou aos outros — uma atitude falsamente positiva, generalizar um estado feliz e otimista seja qual for a situação, silenciar nossas emoções ‘negativas’ ou as dos outros.” Este é o conceito de Positividade Tóxica citado por Lucía Blasco na BBC Mundo, num texto* de 2020 - o ano que ninguém vai esquecer.

E há anos venho sentindo na pele esta positividade excessiva, sufocante, como se fosse um erro ou mesmo mal se sentir triste, frustrada, decepcionada, com raiva, ou seja, qualquer emoção negativa sobre qualquer assunto. Tudo deve ser visto como aprendizado, mas, como dizem alguns memes nas redes sociais, então fui confundida com o Rambo, né?

Algumas pessoas estão perdendo a noção entre um pessimista e um realista. Entre ser sincero e falso. Falando nisso, quando é que as pessoas perguntam honestamente querendo saber mesmo se está tudo bem? E veja, não estou falando de uma pessoa qualquer que você só está sendo educado na rua, no trabalho ou em algum serviço, estou falando de perguntar isso para um familiar, um amigo ou uma pessoa que você estime.

Para as pessoas em que fazemos isso como hábito de abordagem educada, tudo bem você não querer ouvir toda uma lista de problemas e lamentações, mas no caso dos familiares, amigos e pessoas estimadas, não seria melhor então nem perguntar? Porque claro que é mais legal ouvir que está todo mundo bem, superfeliz e satisfeito, vivendo uma vida próspera… e melhor ainda não ter que ouvir coisas negativas, problemas e ainda muitas vezes quase ter que ser a solução deles.

Não sei se sou eu na minha energia escorpiana com ascendente em escorpião, mas sabe, acho que o mundo está tão falso que agora parece que todo mundo é obrigado a criar uma realidade feliz e dizer que está tudo sempre muito bem, perfeito, para não chatear ninguém (e nem ter que ouvir sermões sobre como não desistir diante das dificuldades, o quanto há pessoas em situações piores, que tudo é aprendizado ou tentar fazer uma reflexão sobre o que tem acontecido). E atenção! Justo eu sou super a favor de refletir e ver as mensagens subliminares e lições que a vida tem para a gente em tudo, acredito que a gente só entende o presente olhando para o passado e {a duras penas, confesso} aprendi também a crescer com as críticas (chamadas modernamente de feedbacks), mas pelo amor! Para tudo há limites!

Você deve ter visto o filme Divertidamente e, se não viu, recomendo. As emoções negativas também são necessárias para o bom funcionamento mental, para a gente não viver numa realidade paralela, fugindo da realidade na verdade, para não enfrentar a dureza do mundo. Sim, o mundo tem infinitas coisas boas, mas também é muito duro. Nem todas as pessoas são boas, assim como nem todas são ruins. Aliás, uma colega de trabalho me ensinou uma coisa muito interessante. Disse ela uma vez: “as pessoas acham que toda pessoa idosa é coitadinha, fofinha… mas não é. Porque essas pessoas já foram jovens e eram ruins. Não foi só porque envelheceram que ficaram boas”.

Esta reflexão me abriu um mundo novo e superreal!

E não estou falando para reclamar de tudo o tempo todo! Isso também é um horror. Aqui em Portugal é muito comum responderem à pergunta “tudo bem?” com “vai-se indo”. Nunca está “tudo bem”, sempre “vai-se indo”. Nem tanto como aqui, nem tanto como no Brasil, onde tudo está sempre “bem” e até “ótimo” muitas vezes - quando a gente sabe que não está.

As redes sociais trouxeram uma idealização da felicidade, do bom e aceitável de uma forma doentia. Expor o que sente? Só se for bom ou inventado. Tem que parecer atraente, positivo e se não for, tem que trazer uma lição, um aprendizado. E assim as pessoas vão confundindo o virtual com o real, o criado com o sentido de verdade, a superficialidade com a preocupação genuína.

E aí pessoas como eu, e às vezes você aí também, acabam sufocadas, sentindo que a vida só não vai bem para a gente, mas que há tanta coisa boa que acontece também para agradecer e pessoas com uma vida tão pior… e entramos no ciclo doentio da positividade tóxica, onde não vale ser real {porque os sentimentos negativos fazem da gente humanos, ou você já viu o ChatGPT dizer que está triste? Aliás, até ele é cheio de positividade tóxica com aquela motivação e babação de saco exagerada se a gente não falar para ele não fazer!}.

E eu estou tão cansada de ter que me silenciar, de ter que me justificar, de ter que ver o lado bom de tudo, mesmo quando eu estou triste, frustrada, decepcionada e P da cara de ser tratada mal, com desrespeito. Há anos (e olha que eu faço terapia!). Viver frustrada virou meu normal, assim como deve estar sendo para você ou para alguém que você conhece. “Ah! Mas o poder de mudar está só na sua mão…” Ah! Gente… me poupe, se poupe, nos poupe! Tem vezes que a vida testa a gente quase diariamente… DU-VI-DO que você nunca passou por fases assim? Se não passou, você está de PA-RA-BÉNS! Alecrim dourado privilegiado, inclusive abençoado com o manto da paciência e evolução espiritual. Esperando aqui ansiosa seu curso sobre “Como passar por provações sem mandar metade do mundo para aquele lugar!”.

Tem dias que a gente só queria viver a música “Céu Azul” do Charlie Brown Jr.: “Alguém te perguntou como foi seu dia?” E ouvir. De verdade. Sem pena, sem se estressar, sem sermões motivacionais. Simplesmente ouvir prestando atenção e, se der, falar algo real. Ignorar o que falamos, num silêncio sepulcral, também não é legal, tá? Equilíbrio. Ou melhor, o que eu peço é que as pessoas voltem a ser humanas. Tão simples quanto isso. Empatia. Se fosse o contrário, como você gostaria que fosse? Simples assim.


*BLASCO, Lucía. O surpreendente efeito da positividade tóxica na saúde mental. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/geral-55278174>. Acesso em 23 set. 2026.





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