Ser ouvida é um luxo



{Você também pode ouvir este texto em: Ser ouvida é um luxo }

Há 6 anos, se me perguntassem como eu estaria hoje, eu não acertaria. Eu diria que estaria feliz, com uma vida plena, mais completa, com sonhos realizados… mas passei esta noite chorando, não de felicidade, mas de arrependimento, de indignação, de tristeza e decepção comigo mesma. Hoje, 14 de outubro de 2026, faço 6 anos em Portugal. Ontem, fui chamada de mentirosa por uma superior no meu trabalho aqui, um part-time no supermercado a repor frutas e legumes (o único trabalho que consegui no último ano depois de enviar mais de 50 currículos e algumas entrevistas na área da educação e inovação social). Sabe por que ela me chamou assim? Porque estávamos diante do outro chefe a explicar a situação em que ela praticou xenofobia comigo. Pois é… xenofobia, assédio moral… belo ambiente, não é? Nunca pensei em estar num meio desse. Minha jornada profissional foi {praticamente 100%} em ambientes intelectuais. Trabalhei um mês numa loja num shopping aos 19 anos e depois entrei na primeira editora: Humana. Pausa aqui. Suspiro. {Queria estar gravando eu lendo já este texto para vocês sentirem tudo comigo…}

6 anos. A pergunta que me faço é: “O que eu estou fazendo?” “Vale a pena?”. Ao contrário de muitos imigrantes, eu não vim para cá em busca de uma vida melhor, aliás, minha vida aqui é pior em muitos aspectos do que era no Brasil, principalmente financeiro. Vim por amor. Mas o amor tudo suporta, dizem… será? Está pesado…

Trabalho para o Brasil, na minha área, de tarde e de noite no supermercado, como falei. Há 3 meses estou nessa jornada. Há 3 meses trabalho todos os dias, porque as folgas não coincidem. No mercado, ao contrário do colega português que acabou de entrar e teve um fim de semana (sábado e domingo) de folga, eu não tive nada disso, nem sábado nem domingo. Mas eu que sou a cretina, não é? “Foi um mal entendido” da minha parte. Assim o é, todos os dias, talvez. Parece que a superdotação que eu tenho seja de burrice…

Este texto me fez lembrar quando eu escrevia mensalmente sobre minha jornada em Roma. Cada mês era uma alegria, mesmo em dizer e saber que vivi momentos desafiadores. Fui para lá sozinha, indo morar fora pela 1ª vez, numa das maiores capitais do mundo, sem planos. Em Roma, tive crise de pânico, crise renal no meio da noite (ainda sem falar italiano para explicar no hospital, mas consegui - e tinha minha senhoria de 70 e tal anos ao meu lado, uma querida!). Me perdi no meio do nada, de noite, depois de descer numa estação errada de trem. Tive de ser assertiva, digamos assim, ao solicitar meu documento de permissão de moradia. Essas são algumas lembranças dos dias mais difíceis, fora a saudade, as primeiras vezes… Mas não me sinto triste em lembrar. Claro que era outro contexto: fui apenas para estudar, desfrutar da dolce vita e viver. Tudo. E tudo com o meu dinheiro, a bancar minha vida lá e em Curitiba ao mesmo tempo. Pois é… se fosse hoje, com o que tenho agora, era impossível. Mas dizem que é melhor chorar em euros, na Europa… sempre achei essa frase idiota.

Este ano, estou buscando as razões para comemorar. Estou tão afundada em cansaço mental e emocional que não encontro. Não era o que eu imaginava sentir hoje, até porque eu sempre fui muito grata a tudo e sempre busquei ver o lado bom mesmo nas coisas ruins. Tudo que eu falar hoje vem com o peso da tristeza.

Eu devo merecer, penso. Será? Suspiro. Pausa. Isso tudo vai me tornar mais forte, já está tornando (afinal, voltei para casa ontem decidida a não ir mais trabalhar naquele lugar, mas vou). Engole o choro. Sorria e acene. Ah! Essas frases…

Acho que só estou tendo coragem de escrever e publicar tudo isso porque sei que praticamente ninguém me lê ou ouve. Quem o faz, faz como apoio. Isso acabou virando um diário online. Se inspirar alguém, ótimo. O pico de hiperfoco e motivação da superdotada aqui em relação a ser lida passou. Ser ouvida é um luxo. Isso aprendi aqui em Portugal… Ninguém quer te ouvir, saber tua história… você nasce aqui a partir do momento que chega. Você não era nada antes e nada será.

Sei que não é só aqui, provavelmente. E já ouço os “volta para a tua terra” se por acaso tiver a sorte de alguém ler ou ouvir isso. Se minha terra estivesse agora em melhores condições… aqui um dos pontos bons é a segurança. E isso é 90% talvez do que eu coloque na balança. No Brasil já roubaram meu celular caminhando na rua em bairro nobre e já entraram na minha casa enquanto eu trabalhava e levaram tudo. Aqui, posso sair na rua sozinha de noite e falar ao telefone sem medo. Talvez seja pouco, ne? Talvez. E eu praticamente nem saio de casa aqui… que doce ilusão, Priscila… Não tenho vontade, apesar da cidade em que moro ser linda. Olha, outro ponto positivo. O lado bom das coisas ruins. É, no fim, eu sempre acredito em alguma coisinha… Há algumas outras coisas boas, mas hoje meus pensamentos não são os melhores.

Talvez daqui um tempo, eu releia este texto e reflita. Provavelmente, eu vou lembrar que escrevi ele sentada na poltrona do quarto, com a janela aberta, num dia de sol fresco, com a cara inchada de chorar, recém-acordada depois de só ter conseguido dormir às 3h da manhã, a pensar que tenho que fazer o almoço porque daqui 55 minutos entro no trabalho do Brasil e logo em seguida, quando acabar, tenho que voltar àquele lugar, rezando para meu anjo da guarda me proteger e que aquelas 4h passem rápido…

6 anos em Portugal. Resiliência, resistência, paciência… não sei. Será que melhora? Será que ano que vem ainda estarei aqui? Se sim, de que forma? São muitas perguntas, dúvidas e poucos objetivos e metas quando se está “preso”. As pessoas gostam de julgar pela superficialidade das informações que têm… pelo menos aqui, é tudo mais fundo… e isso que nem falei quase nada do que se passou nesses 6 anos.

Eu sei, é só voltar para a minha terra…

6 anos em Portugal.

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